O distanciamento e o respeito ao nosso tempo: uma reflexão além das cirurgias e procedimentos
- 24 de jun.
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Vivemos uma época em que a velocidade parece ter se tornado uma virtude. Corremos de compromisso em compromisso, respondemos mensagens sem pausa e convivemos diariamente com milhares de pessoas, mas nem sempre estamos verdadeiramente conectados a elas.
Recentemente, algumas experiências pessoais me fizeram refletir sobre algo que vai muito além da medicina: a forma como nos relacionamos com o tempo, com o outro e com nós mesmos. Costumo observar o impacto que as escolhas e os hábitos têm sobre a saúde. Desta vez, como paciente, passei a observar também o impacto que a pressa e a falta de conexão exercem sobre nossa vida cotidiana.
Grandes cidades, grandes problemas. No asfalto cinzento, impessoal e frio, cruzamos caminhos com milhares de pessoas todos os dias, mas o que realmente compartilhamos? Talvez apenas um paradoxo: viver tão perto fisicamente e, ainda assim, tão distantes na essência. Uma convivência em uníssono que abriga verdades distintas — e tão relativas quanto aquelas que os antigos sofistas já defendiam.
A cidade grande é um palco de contrastes cruéis. Nela, o apreço e o respeito ao próximo parecem ser punidos silenciosamente.
Se você escolhe a gentileza de chegar antes do horário, o mundo te pune com a espera em um lobby de prédio frio, impessoal, enquanto o consultório médico parece inalcançável. Se você oferece uma educação trivial no dia a dia, ela é simplesmente engolida pela correria de um atendente exausto. A falsa promessa se esconde em cada esquina, em cada conversa e a tentativa de compensar nossa falta de humanidade com artefatos e a objetificação das relações torna-se, a cada dia, mais evidente. O objeto e a aparência se tornam mais importantes dos que as relações e os sentimentos.
Perdemos a capacidade de sentir, de viver, de perceber e de observar. Em troca, aceitamos a pressa, a compensação material e o vazio das coisas descartáveis.
Com isso, algumas perguntas começam a ecoar no silêncio do fim do dia:
Quem somos nós no meio dessa multidão?
Com quem realmente estamos nos relacionando?
O que, lá no fundo, nós realmente precisamos?
A verdade é que a automatização dos dias nos rouba o foco do que realmente importa. A narrativa de cada "eu" se dissolve e se perde no senso comum. As histórias não fazem mais sentido com início, meio, clímax e fim e as estórias já não existem mais. Criamos uma sociedade cheia de supostos protagonistas. Todo mundo quer ser o herói da própria jornada, mas esquecemos dos personagens de suporte. Esquecemos que, sem a coesão de uma história mútua, não há emoção, não há conexão real. Sobra apenas o ego.
Se os sofistas ganharam um tom pejorativo ao longo da história, hoje a sua essência nunca pareceu tão real. Para cada ponto de vista, há um contraponto; para cada verdade, uma inverdade que ganha força dependendo de onde se olha. E nessa dança de aparências, o nascimento de um protagonista egoísta significa, inevitavelmente, a supressão de todos os outros "eus" que orbitam ao seu redor.
Descobri, na pele, que não existe verdade absoluta. E esse relativismo não serve apenas para vencer debates acadêmicos ou disputas políticas, como se pensava antigamente; ele se manifesta na nossa pele, no nosso cotidiano, no dia a dia comum.
Hoje, na posição de paciente, percebo que sou menos importante do que o profissional que me atende — ainda que o marketing e as fachadas bonitas tentem contar uma história diferente, disfarçar as falhas, assim que olhamos com calma e não apenas com os olhos, colocamos a atenção verdadeira no real sentido, os panos caem e percebemos todas estas falhas do processo.
Mas escolho olhar para isso com o filtro da alma: para cada experiência, um aprendizado. Para cada aprendizado, uma mudança de atitude e uma evolução interna. Cada paciente, cada pessoa, cada ser é único e assim o deve ser tratado. A moeda mais importante e mais cara é o tempo e a conexão.
As marcas que acumulamos na jornada devem servir para transformar nosso olhar, inclusive no âmbito profissional. Afinal, viver não é um monólogo sobre o "eu". É, acima de tudo, um diálogo com aqueles que caminham ao nosso lado e que passam por nossas vidas.
Que eu me permita, então, ser canal de cura, de bem e de alegria — não só para mim, mas para os que me cercam. Essa energia sempre encontra o caminho de volta para casa. E é só assim, dividindo o peso e somando o afeto, que conseguiremos finalmente crescer em uníssono. Singular, único, com conexão e importância reais.
Dr. Bruno Monazzi.



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